sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ele superou uma doença neurológica. E virou craque em olimpíadas de ensino

"As medalhas que ganhei representam uma grande mudança na minha vida. Elas provam que as limitações físicas não impedem que os sonhos sejam realizados". Ricardo Oliveira tem história de esportista e até nome de esportista (como o xará, atacante do Santos), mas é um atleta do conhecimento.

Ao todo, o jovem de Várzea Alegre, interior do Ceará, conquistou mais de dez medalhas em olimpíadas de matemática, astronomia e língua portuguesa. Hoje, aos 27 anos, o rapaz comemora a reta final da faculdade de mecatrônica industrial no IFCE (Instituto Federal do Ceará), que usa a nota do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) no processo seletivo.

Para ele, suas conquistas não poderiam ter sido alcançadas sem a determinação dos pais, ex-lavradores que o alfabetizaram em casa por conta de sua dificuldade de locomoção. Ainda bebê, Ricardo foi diagnosticado com amiotrofia espinhal, uma doença neurológica que afeta a medula. Como a família morava na zona rural da cidade, Ricardo muitas vezes só conseguia se deslocar com a ajuda do pai Joaquim e de seu carrinho de mão, já que a cadeira de rodas não passava por algumas áreas da estrada de terra.

"Sabendo da dificuldade e da falta de acessibilidade, os meus pais decidiram me alfabetizar em casa. Como não possuíam muito estudo, eles me repassaram o básico. Ler, escrever e as operações básicas de matemática", explica. O pai de Ricardo estudou até a 4ª série (atual 5º ano) e a mãe– dona Francisca– frequentou até a 6ª série (atual 7º ano).
Escola só aos 17 anos

Entre uma aula e outra dada pelos pais, Ricardo foi ganhando gosto por descobrir coisas novas. Adorava desmontar brinquedos, eletrodomésticos para entender como funcionavam. Criar coisas também era um hobby. "Cheguei a montar uma luneta rudimentar com lupas", brinca.

Mesmo animado com os desafios, a vontade de aprender as matérias oferecidas pela escola comum crescia, ainda que timidamente. Talvez por sorte do destino, uma diretora de um colégio público na região ficou sabendo da sua história e conseguiu "um jeitinho" para que ele pudesse frequentar o ensino fundamental regularmente.



O ano era 2005, e aos 17 anos Ricardo se tornou aluno da 5ª série (hoje 6º ano) da escola municipal Joaquim Alves de Oliveira, depois de ter feito uma prova de validação de conhecimento. Como a dificuldade de locomoção ainda existia, a saída encontrada pela diretora foi organizar com os professores para que eles dessem as aulas na casa do aluno.


"Era muito bom receber os professores em casa e para mim era algo novo", lembra.


Família de campeões

Ao contar um pouco de sua trajetória, Ricardo não esquece de mencionar outro membro da família fundamental: o irmão Ronildo. Foi por intermédio dele que o "mundo" das competições escolares foi descoberto pelo estudante.

"Ele [Ronildo] participou da edição [da OBMEP em 2005] e conquistou uma medalha de bronze em nível estadual. Então, percebi que se me esforçasse um pouco, poderia conquistar algo parecido. No ano seguinte [2006] ganhei minha primeira medalha de ouro", diz.

"Eu sempre fui um bom aluno com relação às notas, mas nunca fui um dos mais comportados", brinca o estudante. "De vez em quando, fazia alguma bagunça."



A conquista da medalha de ouro na competição escolar chamou a atenção da prefeitura local. Em 2008, a família de Ricardo se mudou para uma casa alugada no centro de Várzea Alegre a convite da gestão da época. O jovem se matriculou na escola Presidente Castelo Branco para terminar o ensino fundamental e pôde, enfim, realizar o desejo de frequentar regularmente uma sala de aula.


No decorrer dos estudos, ele foi participando cada vez mais das competições escolares. Ao todo, o estudante ganhou cinco medalhas de ouro e duas pratas na Obmep (Olimpíada de matemática das escolas públicas), cinco ouros e uma prata na OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica) e um bronze na Olimpíada de Língua Portuguesa.

Por causa do bom desempenho, Ricardo começou a dar palestras motivacionais em escolas por várias cidades do Ceará. Com o dinheiro que recebia pelas apresentações e da bolsa de estudos do Programa de Iniciação Científica da Obmep, ele ia ajudando os pais com as despesas de casa.

Hoje, o universitário já pensa nos planos após a formatura. Um mestrado em matemática tem grandes chances, segundo ele.

"A educação é único caminho que leva a uma mudança de vida significativa. Hoje vivemos em um mundo altamente competitivo e aqueles que não estão se preparando dificilmente conseguem 'subir' na vida. Era um sonho meu e dos meus pais que eu fizesse um curso superior", diz.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/noticias/2016/12/02/ele-superou-uma-doenca-neurologica-e-virou-craque-em-olimpiadas-de-ensino.htm