terça-feira, 20 de agosto de 2013

Biblioteca Braille é ferramenta de inclusão social

Acervo conta com livros em braile, áudio-livros, títulos em CD e digitais. Foto: Eduardo FerreiraFoi como se uma cortina negra se fechasse frente aos seus olhos, para nunca mais se abrir. Manoel Narcizo Ferreira Neto assim define a deficiência visual completa aos 27 anos, por causa de um descolamento de retina. Antes, uma miopia e um astigmatismo dificultavam sua visão. Depois, teve que se acostumar com a realidade da cegueira, imposta bruscamente.

Acervo conta com livros em braille, áudio-livros, títulos em CD e digitais. Foto: Eduardo Ferreira
Hoje, aos 43 anos, Manoel venceu desafios. Voltou a estudar há cinco anos e está terminando o curso de Psicologia, como bolsista, no qual apresenta a monografia no próximo mês de novembro. Para prosseguir com os estudos, o universitário contou com a ajuda fundamental da Biblioteca Braille, unidade da Secretaria da Cultura, que funciona no Centro Marietta Telles Machado, na Praça Cívica, em Goiânia.
No local, Manoel tem acesso a livros em áudio gratuitos, digitalizados com apoio de um software especial, voltado a pessoas que enxergam pouco ou nada. “Foi o meu braço direito e esquerdo durante toda a faculdade. Com os livros digitalizados, tenho a independência de estudar na hora em que eu desejo, sem precisar de ajuda de amigos ou familiares para fazerem a leitura em voz alta”.
Psicanálise Clínica é o direcionamento de Manoel. Na biblioteca, ele encontrou a coleção completa de Sigmund Freud, com 23 volumes. Outros títulos de autores consagrados, como Lacan e Klein, foram digitalizados e passados para arquivos em áudio MP3 por encomenda do universitário. “Ao terminar minha graduação, quero buscar uma especialização. E, para isso, contarei novamente com ajuda da biblioteca, que é uma importante forma de inclusão, para ajudar pessoas como eu a estudarem e terem acesso a todo tipo de informação”, explica.

Braille?
Apesar do nome, a Biblioteca Braille trabalha praticamente com livros digitalizados e áudio-livros. A técnica de passar livros para o braille não é tão usada atualmente por demandar mais espaço e pela dificuldade de armazenamento e transporte para o leitor. Um livro convencional de 160 páginas passado para o braille teria quatro ou cinco volumes, para se ter noção.
Para pessoas que têm deficiência visual parcial, é possível ler no computador com apoio de programas que aumentam os trechos do texto ao passar as teclas ou o mouse, e deixam o fundo da tela preta, com as letras brancas para criar contraste. Para quem, a exemplo do Manoel, não consegue enxergar, os livros, após digitalizados, são transformados em arquivos de áudio, com apoio dos programas Audiobook ou DS Speak.



 

Fábio Pereira digitaliza livros com apoio de softwares específicos para deficientes visuais. Foto: Eduardo Ferreira
Fábio Pereira digitaliza livros com apoio de softwares específicos para deficientes visuais. Foto: Eduardo Ferreira

O trabalho de digitalização fica a cargo de dois funcionários, também deficientes visuais parciais – todo o quadro de trabalhadores do local tem algum nível de deficiência visual. Um deles é Fábio Pereira Pinto, que trabalha na biblioteca há quase quatro anos, em meio expediente. “É um serviço minucioso, que exige bastante atenção. Se o livro está rabiscado, ou se é um xerox, o scanner não lê perfeitamente. Então, é necessário digitar manualmente, com apoio de uma lupa”, detalha.
Fábio precisa de muita iluminação para
desenvolver seu trabalho. Página a página, ele confere as linhas e parágrafos. Um título de 400 páginas, por exemplo, pode levar até duas semanas para ser concluído. “A maioria das obras são de Direito e Psicologia, brinco que vou me formar nesses cursos por tabela, de tanto que leio o material acadêmico”, revela com bom humor. Por ano, ele chega a digitalizar mais de 20 livros somente desses dois cursos.

Biblioteca e tecnologia
Maria Eunice, formada em Biblioteconomia, coordena o acervo e os trabalhos. Foto: Eduardo Ferreira
Maria Eunice, formada em Biblioteconomia, coordena o acervo e os trabalhos. Foto: Eduardo Ferreira
Todo o material digitalizado vai para o acervo da biblioteca, que hoje conta com cerca de 15 mil obras. Além disso, há os livros em braille, na maioria mais antigos e de conteúdo didático, que contabilizam aproximadamente quatro mil títulos, e os livros em CD, com cerca de 500 unidades. Quem coordena esse trabalho e armazenamento é a bibliotecária Maria Eunice Suares Barboza, que atua no local desde a época de recém-formada, em 1992, data em que a biblioteca, antes unidade da Associação dos Deficientes Visuais do Estado de Goiás, passou a ser do Estado.
Segundo Eunice, que tem apenas 5% da visão, na época em que fez faculdade de Biblioteconomia, a realidade para os deficientes visuais era bem mais desafiadora. “Eu dependia da ajuda de amigos ou precisava, ainda, pagar alguém para ler os livros acadêmicos. Não existia esse aparato de hoje”, relembra.
A bibliotecária praticamente desbravou esse campo da tecnologia. Em 1994, quando poucas pessoas tinham computadores em casa, comprou seu primeiro desktop para auxiliar sua leitura e ter acesso à informação, com um dos primeiros programas informatizados voltados a esse público, o Dos Vox. “Na época, ainda usávamos disquetes, os recursos eram menores, mas foi um grande avanço em independência e acessibilidade”.
Eunice sabe bem como é importante conceder esse aparato a pessoas que, assim como ela, dependem de tecnologia específica para ler, seja por lazer ou estudo. “Em parceria com a biblioteca, há um laboratório de informática da Associação dos Deficientes Visuais do Estado de Goiás (Adveg), para ensinar os deficientes a usarem os computadores. São máquinas normais, que podem ser compradas em qualquer loja e trazidas aqui para instalação gratuita do software específico de ampliação de tela ou leitura voz”.

Voluntários
A sala de informática da Adveg conta com apoio de voluntários, que também têm algum nível de deficiência visual e que, justamente por isso, sabem exatamente como acolher e ajudar quem busca auxílio. Além de servir como laboratório de aprendizado, a unidade tem cabines de leitura e os voluntários ajudam a instalar em smartphones com touchscreen aplicativos específicos de comando de voz.
Um desse voluntários é Romeu Fernandes de Lima, que interrompe brevemente a entrevista com Maria Eunice, em tom de brincadeira. “Em reino de cego, quem tem olho é rei. A senhorita repórter pode me ajudar a ler um código no computador?” Romeu estava ajudando o rapaz Paulo Andreoli, em sua primeira visita à sala de informática, a fazer sua estreia no mundo digital, seu primeiro e-mail. “É normal isso acontecer, vários sites, apesar de terem plataformas acessíveis, não são 100%, infelizmente. Esse e-mail, por exemplo, é ótimo para ser utilizado, mas apenas na hora de fazer um novo cadastro, precisamos de uma pequena ajuda”, conta o voluntário, sobre os pequenos detalhes que, geralmente, passam despercebidos na rotina de quem tem a visão normal, mas que levam à reflexão.

DadosSegundo Censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, entre os 45,6 milhões de brasileiros que declararam ter alguma deficiência física, a deficiência visual foi a que mais apareceu entre as respostas dos entrevistados e chegou a 35,7 milhões de pessoas. Pelo estudo, 18,8% dos entrevistados afirmaram ter dificuldade para enxergar, mesmo com óculos ou lentes de contato.
Entre as pessoas que declararam ter deficiência visual, mais de 6,5 milhões disseram ter a dificuldade de forma severa e 6 milhões afirmaram que tinham dificuldade de enxergar. Mais de 506 mil informaram ser cegas.

 Fonte:  http://www.goiasagora.go.gov.br/biblioteca-braile-e-ferramenta-de-inclusao-social/